Reportagem e Entrevista

Fonte: Revista Forbes

Data: Março de 2017


A REVISTA FORBES (EDIÇÃO MARÇO/2017), FOI AO ENCONTRO DO EMPRESÁRIO ANGOLANO, GALVÃO BRANCO... A REPORTAGEM NA ÍNTEGRA

Galvão Branco

“BATEM-LHE À PORTA A PEDIR AJUDA PARA AS SUAS EMPRESAS. PEDEM-LHE QUE TRACE ESTRATÉGIAS, QUE APONTE O CAMINHO DO SUCESSO. GALVÃO BRANCO É VISTO PELO TECIDO EMPRESARIAL COMO UMA BÚSSOLA DOS NEGÓCIOS, MAS LAMENTA QUE EM VIRTUDE DO PRECONCEITO AINDA SEJA UM PEQUENO PEIXE A NADAR NUM AQUÁRIO REPLETO DE TUBARÕES.”

O longo percurso de liderança que teve no sector empresarial público despertou Adelino Filipe Galvão Branco, ou simplesmente Galvão Branco, como é mais conhecido, para a arte de gerir. Foi tão grande a paixão pela gestão que o engenheiro electromecânico, hoje com 68 anos de idade, resolveu fazer também dois cursos de pós-graduação nesta área.

Depois de muitos anos ao serviço de empresas estatais, Galvão Branco decidiu abraçar o sector empresaria privado. O primeiro desafio surgiu na Tecnocarro, onde foi administrador- delegado, até 2006, altura em que partiu, com mais três sócios, para um negócio próprio, fundando a GB-Consultores Reunidos, empresa que, aos poucos, tem conquistado o seu espaço num mercado ainda dominado por tubarões, os famosos “big four” do mundo da consultoria (EY, Deloitte, KPMG e PWC).

“Fui, durante muitos anos, administrador-delegado da Tecnocarro, um grupo privado com uma grande capacidade de intervenção no mercado nacional, e foi nesse papel que adquiri a absoluta convicção de que as minhas competências e tendências apontavam para questões que têm que ver com a actividade de gestão. Achei que podia eventualmente ter algum sucesso enquanto gestor e foi neste quadro que decidi seguir em frente”, afirma Galvão à FORBES.

Bárbara Galvão Branco, filha e uma das sócias do empresário na GB, descreve o pai como uma pessoa pragmática e exigente. Profissionalmente, Bárbara diz que o sócio é também muito exigente na sua forma, conduta, princípios e valores. “Além de falar, sabe ouvir e deixa que os outros o façam também. Tem um perfil de liderança que é necessário nas organizações”, considera. Nos negócios, segundo clarifica, Galvão assume uma posição mais de gestão e estratégia, ao passo que ela é muito mais técnica, num fórum virado para a área de finanças. Bárbara diz que não é difícil nem complicado ter o pai como sócio e colega, até porque, como conta, já tinham trabalhado juntos na altura em que este era administrador-delegado do grupo Tecnocarro.

No mercado há dez anos, a GB, empresa de direito e de sócios angolanos, tem como propósito fundamental a prestação de serviços de consultoria a empresas e instituições públicas. Coabitam na sua estrutura orgânica duas unidades de negócios com competências para intervir no âmbito da elaboração de estudos e projectos para os vários sectores da economia real, bem como a fiscalização e supervisão de empreitadas de construção civil e obras públicas.

CORRIDA DESIGUAL

Com sede em Luanda, a empresa de Galvão conta ainda com filiais nas províncias de Benguela, Huíla, Malanje, Namibe, Huambo, Bié e Uíge, empregando 142 pessoas. O empresário conta à FORBES que na fundação da GB esteve um investimento inicial de 200 mil dólares, que foi garantido através de crédito bancário – e foi pago na sua totalidade no primeiro ano de actividade. Galvão Branco garante que a empresa tem vindo a crescer de forma sustentável ao longo dos últimos anos. Os números do ano passado expressam essa realidade, com a empresa a facturar cerca de 6,1 milhões de dólares. A perspectiva é de passarem a facturar anualmente 15 milhões de dólares a médio prazo. “Começamos esta empresa com o equivalente a 200 mil dólares. Este valor serviu para irmos buscar aspectos de natureza física, mas o grande investimento foi termos contratado pessoas que têm capacidades e competências de grande valor.”

De acordo com o empresário, o mercado de consultoria no país encontra-se em contracção, face ao momento de crise económica e financeira que se atravessa. Ainda assim, diz, a GB tem criado alternativas no sentido de sobreviver à actual situação menos boa do país. Para se manter no mercado, Galvão tem adoptado uma estratégia que se compagina com as lições que se tiram da conhecida fábula do escritor francês La Fontaine “A cigarra e a formiga”, cuja moral é uma lição de vida ligada ao esforço e à capacidade de antever as necessidades: trabalhar e arrecadar no Verão para quando o Inverno do negócio se fizer sentir. “Estamos a assegurar, com toda a racionalidade, os nossos encargos de estrutura, com apelo às nossas reservas de tesouraria, aguardando a retoma, em breve, do mercado onde estamos posicionados”, diz.

Além do problema do abrandamento da economia, que se repercute em menos oportunidades de negócio, o empresário tem ainda de lidar com algum preconceito do mercado em relação ao exercício da actividade de consultoria por parte de empresas nacionais, face às chamadas “big four”. Infelizmente, lamenta, “uma coisa é ter um emblema de uma empresa internacional de consultoria e outra coisa é ter um logótipo de uma empresa nacional”, até porque, acrescenta, não cria a almofada que por vezes se pretende. “Temos uma certa atitude preconceituosa, ainda precisamos muito de emblemas. Uma almofada de uma EY ou de uma Deloitte dá o respaldo e até começa a ser comum ouvir-se as recomendações, da parte dos dirigentes angolanos, no sentido de se contratarem empresas de consultoria internacional com boa reputação. Dá a impressão de que para se ter reputação tem de se ser uma empresa estrangeira e que não temos empresas nacionais eficientes”, desabafa, inconformado. Galvão Branco defende que na área de engenharia existem empresas angolanas “extremamente” eficientes e que, tirando os aspectos de lobby, tráfico de influência e falta de transparência, o país continua amarrado ao preconceito das marcas.

A dificuldade em conviver com o preconceito existente no mercado de consultoria no país é um facto, mas o empresário não esmorece e sabe bem com que linhas cozer para dar a volta. Face a isto, o experiente gestor vem procurando intervir em nichos de mercado que não interessam às conceituadas empresas estrangeiras ou onde estas não são competitivas, ora porque os consideram segmentos menos cómodos ou porque lhes exigem uma forte adaptação e conhecimento dos contextos, como é o caso da prestação de serviços fora da capital do país. Galvão Branco deixa claro que nada tem contra as empresas estrangeiras, mas o certo é que se o relatório de auditoria de uma grande empresa tiver o logótipo de uma YE terá um impacto diferente de um logótipo da GB, por exemplo, ainda que o conteúdo e as conclusões do documento sejam os mesmos. “Estamos à procura do nosso espaço e temos uma estratégia condicente com um mercado dominado pelas “big four”. Temos tido algum sucesso, mas claro que, neste momento, o mercado está em contracção e isto, naturalmente, reflecte-se na nossa facturação”, não deixando de recordar com nostalgia o ano 2009, em que a sua empresa chegou a facturar 24 milhões de dólares.

DÍVIDAS ARRASAM TESOURARIA

Os efeitos nefastos da crise não se fazem apenas sentir do lado do abrandamento de projectos e do reduzido número de negócio que florescem. Fazem-se sobretudo sentir com precisamente isso com que Galvão Branco se depara hoje em dia, com muitos dos seus clientes a revelarem grandes dificuldades em cumprir os prazos de pagamento acordados. Neste momento, o empresário revela à FORBES que a GB tem o equivalente a 30 mil milhões de kwanzas a haver de contratos celebrados, sendo que 98% desse bolo diz respeito a dívidas acumuladas em trabalhos para o sector público. “Esta situação tem tido um impacto muito grande na tesouraria da empresa”, refere Galvão Branco. Contudo, o empresário sublinha que o Estado é uma entidade de bem e que mais tarde ou mais cedo irá pagar. “Estamos muito esperançados que a nova direcção do ministério das Finanças resolva este problema. A nossa empresa já esteve durante quatro anos a trabalhar naquele ministério, num domínio muito sensível e crítico que é a certificação das dívidas. Agora lá estamos nós com este mesmo problema de sermos credores em seca”, ironizou.

O alcance dos objectivos delineados, aponta Galvão Branco, depende da capacidade de investimento dos sócios. “Para me posicionar entre as cinco maiores empresas de engenharia estou a investir para que isso ocorra, porque não há milagres. Portanto, acontecerá em termos de marketing e com a nossa capacidade para oferecer produtos que tragam vantagens comparativas em relação aos nossos concorrentes. Mas há outros aspectos com os quais temos dificuldade em lutar, que é o forte lobby, o tráfico de influência e alguma falta de transparência que impede, de facto, que a luta e as condições sejam iguais para todos. Seja como for, , temos estes propósitos estratégicos e criamos condições para que isto ocorra”, garante. Para um futuro próximo, Galvão Branco confidencia que dentro da área de consultoria, está na forja a diversificação para outros domínios mais especializados, concretamente das tecnologias de informação, por via de tomada de participações. O que se pretende, esclarece, “não é constituir um negócio novo, mas cuidar daqueles que já estão a decorrer um pouco fora do nosso core business.” Galvão Branco destaca também que para a empresa estar bem no mercado e ser competitiva, a sua equipa tem alocado recursos para fazer uma aposta muito forte na reciclagem intelectual dos quadros. “O nosso activo principal é o capital intelectual”, considera. Por isso, a direcção da GB tem patrocinado bolsas de estudo para os funcionários. “Temos aqui trabalhadores que vieram com ensino de base e hoje, por nossa conta, têm a formação superior. Estamos a criar uma imagem de marca em que o veículo principal são os nossos trabalhadores”, concluiu.

Galvão Branco considera que Angola continua com problemas na resolução de questões candentes, como a melhoria da eficiência dos procedimentos administrativos e a transparência dos actos públicos, que tornam o ambiente de negócios impróprio para a atracção de investimentos.

A FORBES PERGUNTA

Forbes - Como classifica o ambiente de negócios no país?

GB – O ambiente de negócios que actualmente prevalece em Angola, tal como classificam os instrumentos especializados internacionais, como por exemplo o Doing Business, não é propiciador da atracção de investimento privado que tanto precisamos para realizar a política económica de diversificação. Temos sérios problemas em atender e resolver questões críticas como é o caso da corrupção, da melhoria da eficácia dos procedimentos administrativos, profundamente contaminados com excessiva burocracia, significativos défices na oferta de capital humano com conhecimentos necessários e infra-estruturas cuja operacionalidade afecta seriamente a competitividade. Este quadro bastante adverso não é atractivo para gerenciar capital privado, quer nacional quer estrangeiro, nos montantes e condições que o país necessita.

Forbes – O que se deve fazer para o melhorar?

GB – A melhoria do actual contexto com o estratégico propósito de atrair investimento privado passa essencialmente pela assunção de uma grande vontade política de mudar cada uma das categorias que influenciam negativamente este desiderato. Algumas iniciativas vêm ocorrendo como é o caso da redução dos procedimentos e do capital para a constituição de uma empresa, a nova Lei do Investimento Privado maus apelativa e importantes investimentos em infra-estruturas, sobretudo na produção de energia eléctrica, que em breve estarão disponíveis. Temos de ser mais exigentes e acutilantes em matéria da transparência dos actos públicos e fazer com que as oportunidades sejam iguais para todos. É necessário que as políticas e procedimentos da concessão de crédito também estejam alinhados com o propósito de fomentar o investimento privado.

Forbes – Que avaliação faz sobre o desempenho do sector empresarial público e privado do país?

GB – Infelizmente ainda temos um Estado muito presente e interventor na nossa economia, o que atrapalha e por vezes condiciona a iniciativa privada. Temos um aparelho “obeso” e um sector empresarial público desmensurado e desproporcionado, o que não permite que o serviço do Estado atenda com eficácia as necessidades do cidadão, sem desperdícios ou má utilização dos recursos de todos nós.

Forbes – Acredita num 2017 melhor que 2016?

GB – Creio que o presente exercício de 2017 vai ser desafiante em matéria de liderança e governação, já que existem expectativas geradas pelo processo eleitoral, por via dos programas que os agentes políticos se comprometem a executar em benefício dos cidadãos. Entendo, contudo, que não devemos adoptar atitudes de exuberância e de excessivas expectativas, para não defraudar as legítimas ambições dos angolanos, que merecem maiores níveis de desenvolvimento humano. Acredito que dispomos de capital político e capacidade técnica e profissional para enfrentarmos as ameaças deste exercício de 2017.

By in Revista Forbes / Março de 2017

Brandao Branco
Brandao Branco