Entrevista

Fonte: Semanário Económico

Data: Setembro de 2015


“OS ANGOLANOS TÊM DE SE PREPARAR PARA MOMENTOS DIFÍCEIS

Galvão Branco

O consultor de empresas, Galvão Branco, disse em entrevista ao Semanário Económico (SE) que se a actual situação de natureza fiscal, monetária e cambial se mantiverem, prevalecendo a crescente procura de moeda externa e a redução do consumo, não será possível prever-se uma desaceleração da taxa de inflação.

O BNA anunciou, recentemente, as previsões de crescimento para 2016. O PIB poderá crescer 3,5%, o sector petrolífero 4% e o sector não petrolífero acima dos 3%. Como avalia estes indicadores?

São efectivamente expectativas de crescimento que não se compaginam com o que é necessário e determinante para se atingir patamares de desenvolvimento económico e social mais elevados que sejam proporcionadores de um maior incremento da renda nacional, dos rendimentos das famílias e sobretudo uma significativa melhoria das categorias diferentes do desenvolvimento humano. Associado a esta preocupante situação regista-se a perspectiva do sector petrolífero ter um peso mais significativo nas previsões de crescimento o que não está em linha com os nossos propósitos estratégicos da diversificação da economia. Ao se confirmarem estas estimativas, os angolanos têm que se preparar para momentos difíceis que irão ocorrer na satisfação das suas necessidades e na realização dos seus projectos de vida que necessariamente vão ter que ser adiados.

O Banco Central prevê também uma desaceleração do processo inflacionista, diante do contexto económico actual acha possível alcançar este objectivo?

Se a actual situação de natureza fiscal, monetária e cambial se mantiverem, prevalecendo a crescente procura de moeda externa e a redução do consumo, não creio ser possível prever-se uma desaceleração da taxa de inflação. Outrossim creio que se venha a registar um crescimento a dois dígitos arriscando avançar com uma estimativa de taxa de cerca de 14/15% e o seu consequente reflexo da vida das famílias, já que não é possível, incrementos nos seus rendimentos domésticos.

O FMI recomenda um ajuste na folha de salário a nível da função pública. Concorda com esta medida?

Entendo a lógica do FMI quando recomenda a redução dos encargos salariais com a função pública que devem representar o equivalente em moeda nacional a cerca de 1,2 mil milhões de dólares americanos, num momento em que se regista uma significativa contracção da despesa pública face a uma redução de cerca de 50% da receita fiscal. No entanto é crítico ponderar e avaliar os impactos que uma medida desta natureza teria na vida das famílias e as suas consequências na manutenção do principal activo político que todos devemos perseguir que é o desiderato da estabilidade social.

É contudo sensato e ajustado as medidas técnicas e administrativas que vão ser adoptadas no sentido de assegurar a fiabilidade desses encargos, já que é suposto existirem “funcionários fantasmas”, face algum descontrolo existente.

O BNA realizou pela terceira vez consecutiva leilão de venda de moeda estrangeira às casas de câmbio. O montante vendido no leilão foi de USD 10,0 milhões em cada uma das semanas. Acha que esta medida vai ajudar a resolver o problema das divisas? Este montante é suficiente?

Um dos principais síndromas que qualquer mercado financeiro tem dificuldade de se confrontar é a perda de confiança do sistema. Mesmo que a actual situação de procura de moeda externa decorra de legítimas necessidades de garantir a importação de bens e serviços fundamentais a actividade do País e a situação de despesas de particulares para suprir encargos com deslocações ao exterior, há efectivamente uma procura desmensurada sobretudo de dólares como moeda de refúgio face a perda de valor da moeda nacional e a sua não disponibilização em tempo útil. Não há condições de garantir essa procura, mesmo recorrendo as sucessivas desvalorizações do Kwanza, a não ser o recurso a medidas administrativas e restritivas na disponibilização das divisas existentes aos operadores do sistema financeiro. Outrossim é exigível que o órgão regulador dê garantias que a disponibilização de divisas aos agentes económicos e cidadãos está a ser feito segundo critérios e prioridades que atendam o interesse nacional. Temos todos que ficar claros sobre os contornos e como decorre a informalidade do comércio de câmbios e as eventuais fugas de capitais.

Que resultado espera da economia angolana no último trimestre do ano?

Mesmo com as correcções e ajustamentos que foram operados nos pressupostos orçamentais e a adopção de medidas de racionalidade económica e o agenciamento de fontes alternativas de financiamento a Tesouraria Nacional, as incertezas que se colocam no evoluir do mercado petrolífero mundial, fazem crer que a economia angolana manter-se-á estagnada com os correspondentes reflexos na vida das famílias e das empresas. Com o aproximar da quadra festiva e os efeitos psicológicos que o período natalício provoca ao nível de consumo privado, conviveremos com algumas situações de maior frustração prestação e desalento por parte dos cidadãos que não irão dispor de rendimentos nem de oferta bastante de produtos normalmente importados susceptíveis de assegurar os padrões habituais de consumo durante este período.